À Procura das Guitarras: como tudo começou...

A idéia surgiu na rua. Caminhando por Copacabana, Caetano começou a pensar em uma música para o festival da TV Record. Queria que fosse algo bem alegre e a primeira coisa que lhe veio à cabeça foi a de um rapaz andando numa cidade grande, olhando as pessoas e coisas na rua, exatamente como ele estava fazendo. A música, imaginou, deveria ser algo bem atual, um som meio elétrico, meio pop, que tivesse a ver com as coloridas imagens das revistas, expostas nas bancas de jornal, com fotos de atrizes de cinema misturadas com cenas violentas de guerra e fragrantes de viagens espaciais.... Queria usas guitarras elétricas no arranjo, mas também achava essencial que ela soasse bem brasileira, como uma marchinha.

Caetano baseou-se numa composição nunca gravada chamada Clever Boy Samba, que fizera em 1964 que satirizava personagens exóticos da Bahia, ironizando os playboys baianos, além de citar lugares pitorescos da cidade e de fazer referências ao cinema internacional e à bossa nova. Esse samba dizia:

Pela rua Chile eu desço/Sou belo rapaz/ Cabelo na testa fecha muito mais / Vou fazer meu ponto / Ali no Adamastor / Mesmo subdesenvolvida / Eu vou fazer a doce vida / As brigittes vão passando / E eu Belmondo / Sigo na lambreta e os brotos / Vão ficando para trás / Sem silencioso fecha muito mais / No farol da Barra / Em falta de Copacabana / Vou queimar a pele / No fim de semana / Entro no cinema / E o filme é com Delon / Aprendo o sorriso / Mas nem sei se o filme é bom / “Come to me my melancholy” / Samba agora é assim / Se não é bossa nova / Não está pra mim / Pra mim, João Gilberto / E Orlann Divo é uma coisa só / De tarde a semana inteira / Dou meu show de capoeira / Na piscina do Yacht, se faz sol / O Nelson Gonçalves / Sei que já ficou pra trás / Se desafinado fecha muito mais / Adoro Ray Charles / Ou “Stella by Starlight” / Mas o meu inglês / Não sai do “good night”.

Caetano pensava em fazer algo nessa linha, mas ao invés de Salvador, queria trabalhar com elementos do universo pop da época. Na mesma noite começou a escrever os versos e horas depois, de madrugada, a melodia e a primeira parte de Alegria, Alegria estavam prontas.

A segunda parte foi feita no dia seguinte. Caetano não consegui resistir à tentação de incluir uma citação de “As Palavras” a autobiografia do filósofo Jean-Paul Sartre – seu livro favorito na época - sem saber que esta se tornaria uma das frases mais famosas e representativas do movimento: “nada no bolso e nada nas mãos”.

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